Curto, logo existo

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AUTOR DO TEXTO: Luís Antônio Giron, editor de Cultura de ÉPOCA

Com a evolução e o aumento de usuários e da importância das redes sociais, o nome e a fotografia de cada pessoa passaram a funcionar como o substituto do sujeito. O “eu” real se esvaziou para dar lugar ao “perfil”. O filósofo francês René Descartes estabeleceu um novo modelo de pensamento no século XVII, ao formular em latim a seguinte proposição: “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum). Era uma forma de demonstrar que aquele que existe raciocina e, por conseguinte, põe em xeque o mundo que o cerca. A dúvida científica substituía a certeza religiosa. Hoje, Descartes se reviraria no seu túmulo em Estocolmo, caso pudesse observar o que se passa na cabeça dos seres humanos. “Curto, logo existo” (Amo, ergo sum) parece ser a nova atitude lógica popularizada pelo Facebook. A dúvida científica cedeu espaço à presunção tecnológica.

Melhor ainda é a formulação da jornalista americana Nancy Jo Sales no livro Bling Ring – a gangue de Hollywood, a dúvida sobre a existência do ego deu lugar, na cultura do ultraconsumismo e das celebridades, a um outro tipo de pergunta: “Se postei algo no Facebook e ninguém ‘curtiu”, eu existo?”

A resposta é: provavelmente não. Eu existo se meus tuítes não são comentados nem retuitados? Claro que não. E se são curtidos ou retuitados, tampouco! Ninguém existe nas redes sociais senão como representações, que estão ali no lugar dos indivíduos. Não há uma transparência ou uma continuidade natural entre o que somos de fato e o que queremos ser nas redes sociais. Isso parece óbvio, mas não o é para muita gente. Agora as pessoas reais guardam uma alta concentração de nada nos cérebros, pois preferem jogar tudo o que pensam e sentem via suas representações nas redes sociais. Elas se tornam ocam para rechear de signos seus perfis. O verdadeiro eu migrou do mundo off-line para o online.

É óbvio que os signos na internet podem enganar, mentir e insidiosamente simular um alter ego digital. Os vigaristas e falsários pululam alegremente com suas máscaras nas redes sociais. Quando alguém me “curte” ou “não curte”, está agindo com sinceridade na mensagem ou quer agradar e parecer inteligente? Ou está ironizando? Nesse sentido, se o eu do Facebook quiser se sentir mais vivo com o número de pessoas que o curtiram, estará caindo em uma armadilha. Pois ele não é o que é nem quem curte é o que parece ser. Mesmo quando a boa-fé existe, ela deixa de o ser porque nada se mantém estável no ambiente da “curtição” do Facebook.


Até a morte está vulnerável a ataques e profanações nesse meio movediço e enganoso em que, como diz Manuel Castells, a rede é a mensagem. Quando um indivíduo morre no mundo concreto, ela continua mais vivo do que nunca nas redes sociais online, pois seu perfil e seu histórico continuam atuando como se substituíssem o ser humano que os gerou um dia. A sobrevida virtual se torna maior e mais significativa que a vida real. É por isso que os robôs do Facebook geram mensagens aleatórias para que usuários vivos ou mortos “cutuquem” alguém que já está morto, ou “curtam” perfis que já subiram aos céus. Quantos mortos não receberam cutucadas ou convites simpáticos para participar de alguma causa ou curtir alguma página de celebridade? Quantas mensagens não são deixadas para os mortos como um tributo fúnebre?

Isso não me causa calafrios. Ao contrário, pertence à natureza humana acreditar na vida após a morte – e a tecnologia proporciona isso de uma forma concreta. Desse modo, ninguém mais morre totalmente. A vida se torna um prolongamento da morte e vice-versa – o que não deixa de ser uma realidade. Também ninguém mais vive de fato por causa da tecnologia. Quando clicamos para dar sinal de vida, estamos vegetando na indeterminação. Ainda vivos, contemplamos a nossa própria atividade post-mortem.

No que diz respeito a redes sociais, portanto, morrer ou não morrer, ser ou não ser, curtir ou não curtir, vodka ou água de coco, para elas tanto faz, não é uma questão. É, sim, uma tautologia, ou seja, significa dizer a mesma coisa, ainda que sob formas aparentemente contraditórias. Os mecanismos de busca não se importam com quem morre ou vive, salvo para assinalar datas de nascimento e morte. O algoritmo que move Twitter, Facebook e outros sites lê nossas atividades com a mais suprema indiferença.

O ato de “curtir” tem um poder ontológico: ele alterou irremediavelmente a nossa forma de encarar o mundo, os outros e a nós mesmos. Pois o “curtir” é a manifestação mais aguda da insistência do ego na cadeia da lógica binária do Facebook. Se eu “curto”, desejo afirmar minha existência, mas eu menos existo do que penso que possa existir. Se alguém me “curte”, posso adquirir certeza de que estou no mundo e me encher felicidade com o elogio, mas não há como verificar a veracidade dele e, assim, se eu pensar demais nisso, mergulho na frustração e na sensação de vazio existencial. E se o mundo existe só porque todos se “curtem” mutuamente, então ele virou um círculo vicioso de aprovações que o levarão inevitavelmente ao caos. O mundo, em suma, não pode existir fora do moto perpétuo da troca infinita de elogios e aprovações. Quem curte não curte algo, mas curte o próprio ato de curtir. Esse mundo paralelo peculiar se destruiria se houvesse contradições, confrontos e refutações. As redes sociais deram origem a universos de consenso absoluto. De minha parte, não curto, logo desisto.

CRÉDITOS:  Luís Antônio Giron, editor de Cultura de ÉPOCA

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